Eram 10:30 de uma noite fria. Chovia muito. Eu estava sentado no ponto esperando o último ônibus. Pensava na minha vida, no que eu a transformei e principalmente no que eu me transformei. A esperança que outrora se fazia presente havia me abandonado e os mais tenebrosos pensamentos agora governavam minha mente. Era o fundo do poço. Meus familiares já estavam esgotados de tentar me reerguer e de tolerar as minhas facetas. Amigos; eram agora apenas sombras a me rodear, ou melhor, acho que nunca existiram. Era um fato incontestável: eu estava sozinho e não podia fazer nada a respeito. Buscava desesperadamente nos confins da minha consciência uma solução sutil e eficaz para reverter aquele quadro. O suicídio me pareceu a mais adequada. Estava consumado. Ao chegar em casa a velha e empoeirada arma de meu falecido pai, a tanto tempo sem uso iria selar o destino de um bêbado mórbido, um moribundo que um dia foi um homem de posses e prestígio e que vivia agora para se entorpecer e amargar o passado. O ônibus atrasara e aquela ansiedade me consumia com tal intensidade que eu lamentei não poder dar cabo de mim ali mesmo, Até o tempo parecia zombar de mim. De repente o silêncio que até então se fazia onipresente e absoluto foi quebrado. Comecei a ouvir passos, rápidos e imprecisos. Alguém se aproximava, estava encharcado e com ares de apressado. Mais um passageiro para o último ônibus. Ao chegar ao ponto me sorriu um rápido boa noite. Voz suave e ao mesmo tempo precisa, decidida. Ergui minha cabeça e olhei: uma mulher, olhos claros, rosto de traços fortes, os cabelos castanho escuros derramavam gotas de água por todo o seu casaco. Era de uma beleza tão simples, tão única que meus olhos por um instante pareciam imóveis, congelados pelo frio que fazia. Ela me olhou. O encontro de dois olhares, que de tão compenetrados, tão espontâneos pareciam um só. Por um longo tempo nada foi dito, palavras não eram necessárias. Ela sorriu, leve e timidamente, eu retribuí, desajeitado, pois os sorrisos já não eram tão frequentes na minha vida. Sentou se ao meu lado. Conversamos. Falamos de tudo, e de nada, Ríamos, concordávamos, discordávamos, ríamos de novo. O último ônibus não passou aquela noite. E quem se importa? Eu já não me encontrava sozinho. Havia alguém ao meu lado e eu estava sentado na janela de uma outra condução, que para mim chamava se RECOMEÇO.
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